segunda-feira, 9 de junho de 2014

Da descoberta ao futebol

Ando me descobrindo, deve ser coisa da idade. 
Aceitar e pensar sobre isto está sendo  um grande desafio.
Ouvi em algum lugar que temos que nos permitir o luto da perda, por mais doloroso que seja. Pensei muito nisso, muito mesmo. Não consigo lidar muito bem com a perda, aliás uma dificuldade que está dentre minhas descobertas recentes. 
Toda perda é dura, é injusta, doida, mas faz parte da vida deixar ir.
Acontecimentos nos cercam diariamente nos envolvendo direta ou indiretamente.  A forma que  processamos isso é que faz a diferença. Estamos sempre à flor da pele esperando uma notícia (trágica?!) para nos envolver e tomar conta da nossa rotina de vida, ocupando nossos pensamentos. 
Em caso de tragédia pública, então...trituram tanto os fatos que as notícias deixam de ser notícias e passam a circular dentro de nossas mentes por dias e dias.
Mas penso que tudo sempre tem um lado bom, neste caso um lembrete: "somos mortais".
Num instante respiramos e em outro...bem tudo pode acontecer. E o incrível é que preferimos dar ênfase ao que acontece aos outros, sempre. É da nossa natureza não nos perceber. Precisamos nos perceber importantes para nós, para alguém. Somos insubstituíveis, únicos. Ainda estamos vivos e passivos de sentimentos múltiplos aflorando a todo instante. 
O mundo precisa de uma bomba atômica de amor e humanidade que pode vir de nós, cada ser. Temos este poder, de humanizar o amor, torná-lo oxigênio, combustível de vida.
O romance de John Green "A culpa é das estrelas", traz uma feliz abordagem de como se viver o amor, mesmo quando teoricamente não há vida suficiente para vivê-lo:

A ideia vem de encontro com  nosso Vinícius de Moraes que diz: "...eu possa me dizer do amor (que tive): que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure."
Valorizar o que temos e depois o que ainda não temos, é o lema.

Confesso que detesto futebol. Mas neste momento em que o país parece conspirar contra  a Copa, me descubro apaixonada pela nossa seleção, por esses guris de histórias tão singulares, tão reais.
Outro dia me peguei não só assistindo, mas torcendo e vibrando com um gol espetacular do Brasil. Isso é valorizar o que temos. Vamos curtir esse momento depois pensamos no resto, aliás somos brasileiros, adoramos uma pausa.

Ao final deste texto, no qual mesclei vários temas, minha última descoberta:  melhor do que estar apaixonada, é ser apaixonada. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

É o que sempre digo...

Eu achava que não existia “tarefa de homem” e “tarefa de mulher”. Na verdade, nunca tinha me preocupado muito em pensar a respeito. Qualquer pessoa poderia fazer qualquer coisa dentro de suas habilidades, independentemente do gênero.
Descobri que não é bem assim. Nas relações entre pessoas, há mais coisas do que imagina nossa vã filosofia. Hoje acredito que sim, há tarefas para os homens, outras para as mulheres. Questão de sobrevivência.
Era Noite.
Não a noite densa e escura da hora de dormir. Aquela noite leve, que acontece entre o jantar e os primeiros bocejos. Todos satisfeitos e sabendo, intuitivamente, que àquela hora não iria acontecer mais nada digno de ser lembrado. Os copos teimavam em esvaziar, obrigando alguém a tomar uma atitude.
- Não abre essa garrafa!
A reação da sogra foi tão súbita que Bruna quase quebrou o vinho.
- Nossa, desculpa, Maria. Achei que fosse para a gente tomar.
- Mas pode tomar.
- Então não entendi…
Henrique, se virando no sofá, também parecia não ter entendido.
- Por que ela não pode abrir, mãe?
- Porque isso é coisa de homem.
- Como é???
- Sim, o homem sempre deve abrir a garrafa de vinho.
Henrique lança um olhar perplexo a Bruna, que ainda segurava a garrafa e o saca-rolha. Ela dá de ombros. Ele ergue uma sobrancelha. Por uma fração de segundo, ambos mantêm este ping-pong telepático, que só os casais sabem fazer. Tentam lembrar onde tinham aprendido esta regra de convivência: “quem deve abrir a garrafa”. Chegando à certeza que não vinha de lugar nenhum, ele toma a iniciativa.
- Não viaja, mãe.
- Onde já se viu, guri. Levanta daí e abre a garrafa para ela.
- Mas ela já está ali!
Não havia como entender este súbito posicionamento machista da sua mãe. A garota tentou terminar o assunto.
- Pode deixar, Maria, já estou aqui mesmo.
A matriarca vai para perto da nora, põe a mão em seu ombro e fala como se estivesse revelando um aprendizado que só os anos de experiência trazem.
- Conselho de amiga, Bruna. Se a gente abrir até as garrafas, não sobra nada para os homens fazerem.
O Abridor de Garrafas - Felipe Freitag Vargas



quinta-feira, 5 de junho de 2014

Tenho refletido muito sobre a intolerância e a  maldade humana.
Se a história nos fornece exemplos da irracionalidade que nutre os barbarismo que envergonham as gerações posteriores, ela também oferece modelos de resistência e de tolerância. A literatura, por sua vez, também expressa uma enorme contribuição. Mais do que os tratados filosóficos, sociológicos etc., a literatura tem a vantagem de trabalhar sobre a matéria bruta, os personagens criados em toda a sua plenitude e fragilidade que caracterizam o humano. Nestes, o racional e o irracional mesclam-se em atitudes e contextos que ilustram as nossas contradições e dilemas. A literatura contribui ainda para a compreensão dos contextos históricos e também para uma análise sociológica, política e filosófica dos caminhos percorridos por nossos ancestrais e dos desafios que temos diante da nossa geração e das que virão.
Mas infelizmente não precisamos dos personagens fictícios como exemplos. Hoje convivemos com a barbárie aos nossos olhos, muito, muito perto.
Menino tendo sua morte friamente planejada por simplesmente existir, mulher mãe de família agredida até a morte injustamente por pessoas que julgam e punem cruelmente, porteiro morto e esquartejado ainda de forma duvidosa por fazer seu trabalho.
Isso ainda me choca, será que não deveria?

Vivemos sem dúvida, o retrocesso.

José Saramago compartilhou o mesmo sentimento no texto abaixo.

A Estupidez e a Maldade HumanaVista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer». Sem dúvida, mas não desta maneira. 

José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
"O ser humano nasceu para ser feliz, completamente feliz. O ser humano nasceu com tudo programado para a felicidade. Você nasceu para dar certo. Esse é o grande projeto de Deus para sua vida. Esse é o grande segredo."

Escolhi esta citação para inaugurar meu blog, pois quem já não se questionou sobre o sentido da verdadeira felicidade? Eu, muitas vezes. É uma questão muito pertinente. Nos questionamos o porque disso o porque daquilo e esquecemos que o tempo passa e rápido e quando nos damos conta passou a vida.

A felicidade ao meu ver está no simples. No simples aperto de mão, na gentileza a um desconhecido, no abrir a janela e perceber que o dia amanheceu e que ainda dá tempo de correr atrás do prejuízo. 
Sempre temos uma nova chance, sempre.