Tenho refletido
muito sobre a intolerância e a maldade
humana.
Se a história
nos fornece exemplos da irracionalidade que nutre os barbarismo que envergonham
as gerações posteriores, ela também oferece modelos de resistência e de
tolerância. A literatura, por sua vez, também expressa uma enorme contribuição.
Mais do que os tratados filosóficos, sociológicos etc., a literatura tem a
vantagem de trabalhar sobre a matéria bruta, os personagens criados em toda a
sua plenitude e fragilidade que caracterizam o humano. Nestes, o racional e o
irracional mesclam-se em atitudes e contextos que ilustram as nossas
contradições e dilemas. A literatura contribui ainda para a compreensão dos
contextos históricos e também para uma análise sociológica, política e
filosófica dos caminhos percorridos por nossos ancestrais e dos desafios que
temos diante da nossa geração e das que virão.
Mas infelizmente
não precisamos dos personagens fictícios como exemplos. Hoje convivemos com a barbárie aos
nossos olhos, muito, muito perto.
Menino tendo sua
morte friamente planejada por simplesmente existir, mulher mãe de família
agredida até a morte injustamente por pessoas que julgam e punem cruelmente,
porteiro morto e esquartejado ainda de forma duvidosa por fazer seu trabalho.
Isso ainda me
choca, será que não deveria?
Vivemos sem dúvida,
o retrocesso.
José Saramago compartilhou o mesmo sentimento no texto abaixo.
A Estupidez e a Maldade HumanaVista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer». Sem dúvida, mas não desta maneira.
José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
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