Eu
achava que não existia “tarefa de homem” e “tarefa de mulher”. Na verdade,
nunca tinha me preocupado muito em pensar a respeito. Qualquer pessoa poderia
fazer qualquer coisa dentro de suas habilidades, independentemente do gênero.
Descobri
que não é bem assim. Nas relações entre pessoas, há mais coisas do que imagina
nossa vã filosofia. Hoje acredito que sim, há tarefas para os homens, outras
para as mulheres. Questão de sobrevivência.
Era
Noite.
Não
a noite densa e escura da hora de dormir. Aquela noite leve, que acontece entre
o jantar e os primeiros bocejos. Todos satisfeitos e sabendo, intuitivamente,
que àquela hora não iria acontecer mais nada digno de ser lembrado. Os copos
teimavam em esvaziar, obrigando alguém a tomar uma atitude.
-
Não abre essa garrafa!
A
reação da sogra foi tão súbita que Bruna quase quebrou o vinho.
-
Nossa, desculpa, Maria. Achei que fosse para a gente tomar.
-
Mas pode tomar.
-
Então não entendi…
Henrique,
se virando no sofá, também parecia não ter entendido.
-
Por que ela não pode abrir, mãe?
-
Porque isso é coisa de homem.
-
Como é???
-
Sim, o homem sempre deve abrir a garrafa de vinho.
Henrique
lança um olhar perplexo a Bruna, que ainda segurava a garrafa e o saca-rolha.
Ela dá de ombros. Ele ergue uma sobrancelha. Por uma fração de segundo, ambos
mantêm este ping-pong telepático, que só os casais sabem fazer. Tentam lembrar
onde tinham aprendido esta regra de convivência: “quem deve abrir a garrafa”.
Chegando à certeza que não vinha de lugar nenhum, ele toma a iniciativa.
-
Não viaja, mãe.
-
Onde já se viu, guri. Levanta daí e abre a garrafa para ela.
-
Mas ela já está ali!
Não
havia como entender este súbito posicionamento machista da sua mãe. A garota
tentou terminar o assunto.
-
Pode deixar, Maria, já estou aqui mesmo.
A
matriarca vai para perto da nora, põe a mão em seu ombro e fala como se
estivesse revelando um aprendizado que só os anos de experiência trazem.
-
Conselho de amiga, Bruna. Se a gente abrir até as garrafas, não sobra nada para
os homens fazerem.
O Abridor de Garrafas - Felipe Freitag Vargas

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