A vida é assim, um dia acordamos e não somos mais aquela criança.
O tempo...sempre ele!
De que lado ele joga? Sei lá, mas penso que dele só temos o que interessa, a pressa.
Pressa de aproveitar o tempo que não temos, sempre na expectativa de mais. Uma ânsia que vem não sei de onde. E nessa maratona muitas vezes, esquecemos de curtir as preciosidades da vida.
Vida...ah vida! Essa menina linda que tem a missão de nos surpreender sempre, mostrando nosso poder de superação.
Quais os sonhos de uma criança? Não temos dimensão deles, mas os mais malucos com certeza. Quem já não sonhou com a casa de doces de João e Maria? A inocência nos faz isso, perceber que tudo é possível. Talvez fossemos adultos melhores se conseguíssemos esquecer a bruxa e perceber somente os doces, vai saber?
Ser mãe não estava em meus sonhos de criança, mesmo quando brincava com minhas bonecas.
Mas hoje meus filhos crescem e refletem que minha vida está neles, é como uma semente boa germinando, é mágico. É a vida tomando forma, moldando um caráter, simplesmente deslumbrante. É aquela sensação de acompanhar o feijão germinando no algodão, quem já não fez isso na escola?
É...surpresas da vida... ou presentes das vida? Sei lá, acho que prefiro coisas boas da vida!
Adoro me descobrir e me surpreender. Minha mansidão não tem fim, mas confesso que adoro uma tempestade.
Altruísta sou eu. Parece bom? Talvez seja, visto que filantropia é meu lema, mas confesso querer ser mais egoísta. Quem escreveu as regras de como ser feliz? Algum idiota infeliz, aposto.
Para isso não precisamos de regras e sim de bom senso e sensibilidade. Sempre pensei somente no que é certo e errado, mas hoje sei que existe um meio termo...e acreditem, é neste ínterim que está a felicidade.
Continuo aquela criança, mas agora com mais sonhos, mais lembranças e muito mais saudades.
Escrever sobre tudo o que se sente ou pensa é uma forma sensata de expressar quem verdadeiramente somos.
domingo, 12 de outubro de 2014
sábado, 9 de agosto de 2014
A herança de um PAI
A nossa história começou com a ideia do meu nascimento, quando em meio à muitas dificuldades de uma família de muitos filhos, eu chegaria em sétimo lugar com o nome de Helena, nome escolhido por ele baseado na mitológica Helena de Tróia.
Minhas lembranças são profundas e sempre doces com significados que vão muito além.
Poderia ficar aqui citando inúmeras situações simples, cotidianas, mas para retratar nossa relação, basta algumas.
Lembro-me do carinho e paciência em explicar os meus "porquês" (que eram muitos...), de ensinar como usar minha memória a meu favor, como ser cuidadosa com minhas coisas dando o devido valor, não tanto ao custo mas ao empenho utilizado no ter.
Lembro-me também do seu empenho em cuidar pessoalmente do meu material escolar, revisando meus cadernos, apontando meus lápis, achando uma alternativa criativa para reaproveitar minha pasta para o próximo ano, e isto tudo à noite, quando depois de um dia cansativo de trabalho e estudo ainda o fazia.
Não posso deixar de lado um episódio que traz uma das maiores lições da minha vida, o da superação.
Fui uma criança extremamente tímida, de não falar mesmo e ainda por cima me esconder. Mesmo assim ele me arrastava incansavelmente como companheira em eventos do trabalho.
Um dia resolveu que eu faria ballet. Fui bem, até saber que todo aquele treino seria mostrado para o público. Aos seis anos tive a primeira e apavorante apresentação pública, e agora Helena?
Pois bem, o tema era da Bailarina e o soldadinho se chumbo...e eu seria um dos muitos soldadinhos. Lembro-me do uniforme que era padrão, mas o chapéu deveria ser adquirido separadamente. Não lembro por qual motivo ele quis fazer o tal chapéu....e o fez com toda sua habilidade.
Quando vi o chapéu pronto, fiquei muito orgulhosa e certa que seria um sucesso. Chegado o dia da apresentação qual a minha surpresa...o meu era o mais lindo e perfeito, o legítimo chapéu do soldadinho da história, mas o único diferente, e muito diferente. O pavor tomou conta de mim e lá veio ele com a sabedoria de sempre, me convencendo a não desistir só por ter o chapéu mais lindo de todos e de não pensar que só porque o meu era diferente era o modelo errado. E assim foi a primeira de muitas apresentações.
De tudo ele comigo tentava...bicicleta, patins (nunca aprendi muito bem), persistente era ele.
Já com meus 8 anos, tive minha primeira experiência de andar de ônibus pela cidade, só que sozinha para desespero da minha mãe, e advinha quem foi o mentor? Ele, é claro. Me colocou no ônibus e me orientou onde descer e o que fazer caso me perdesse...e eu me sentindo segura, independente e capaz...fui. Lembro-me perfeitamente do meu sentimento de liberdade deste dia. Poucos anos atrás ele confessa que jamais me deixou sozinha no ônibus e que me acompanhou escondido, me observando até meu destino.
Certa vez, tínhamos uma horta em casa e todos os domingos era dia da terapia com a terra e lá estava eu e ele. Hoje quando sinto o cheiro da rúcula, recordo daqueles domingos...
Ele sempre incentivou a pessoa que sou hoje, através da sua presença incansável, dos mínimos cuidados ao longo da minha infância, do carinho, da atenção, da proteção sem super proteção.
Dele além de todas essas doces lembranças, herdo também sua sensibilidade, bom senso e criatividade.
Sou tão grata por tudo, mas principalmente grata à Deus por te fazer o meu PAI.
Fico muito feliz ao descobrir que esta essência paternal ultrapassa gerações e padrões. Que em meio à tanto desamor ainda exista esta capacidade de doação, de aprendizado mútuo.
O fotógrafo Timothy Archiebald é um dos mais lindos exemplos disso. Ele mostra que mesmo perante à frustração de não conseguir mudar a realidade de seu filho autista, busca uma forma genial de captar a essência e o universo de Eli, o retratando através de uma série de imagens cotianas e emocionantes.
Em nome deste amor incondicional, esse pai hoje não se preocupa tanto com o diagnóstico e sim com o que realmente importa: a relação dos dois.
O fotógrafo Timothy Archiebald é um dos mais lindos exemplos disso. Ele mostra que mesmo perante à frustração de não conseguir mudar a realidade de seu filho autista, busca uma forma genial de captar a essência e o universo de Eli, o retratando através de uma série de imagens cotianas e emocionantes.
Em nome deste amor incondicional, esse pai hoje não se preocupa tanto com o diagnóstico e sim com o que realmente importa: a relação dos dois.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
O poder da superação
Cada pessoa possui um grau de resiliência, ou seja, a capacidade de se recuperar de situações de crise e aprender com ela. Esta capacidade varia de acordo com a flexibilidade mental e experiência individual, dosada de otimismo...a certeza que tudo passa.
A cada situação negativa vivida, a pessoa resiliente tem a chance de recompor-se, adaptando-se e moldando-se à nova realidade, buscando atribuir sentido ao seu "sofrimento" a fim de enxergar algum benefício naquela circunstância.
Ninguém disse que é fácil. É exercício contínuo.
A superação faz parte da construção do ser, ser pessoa.
A superação faz parte da construção do ser, ser pessoa.
Não nos damos conta do quanto somos capazes de tal proeza, porque muitas vezes valorizamos demais o sofrimento, lambendo as próprias feridas.
Viktor Frankl em seu livro "Em busca de sentido" relata sua experiência real como detento de um campo de concentração no qual descreve seu método psicoterapêutico de como encontrar em uma situação extrema, razão para sobreviver.
Qual o segredo?
Foco, observação e determinação.
Talvez aí entre a lei do desapego...soltar, entregar, deixar ir, deixar partir, fluir, viver no presente, sem o peso do passado. Saber sim da nossa finitude, saber que somos passageiros, sem posses, sem medos e sem culpas.
Dar espaço ao novo requer coragem.
Assumir responsabilidade por nossas escolhas, sem medo.
Pois os sábios já diziam: " Em todo beco sem saída existe uma passagem secreta."
Concluo que sim...somos uma possibilidade.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
O MEDO DE COMPROMETER-SE
Por Osho – Dang Dang Doko Dang –
Eu não estou aqui para fazer de você um cordeiro.
Você já tem sido cordeiro em demasia.
Eu estou aqui para fazer de você um homem.
Isto não vai ser fácil, mas você tem que começar a se tornar responsável pela sua própria vida.
E uma vez que se torne responsável pela sua própria vida, você começará a crescer, porque não haverá mais sentido em desperdiçar tempo adiando ou esperando.
Ninguém irá ajudá-lo.
Toda espera é inútil, é puro desperdício.
Por isto, se existe algum conflito, vá fundo nele.
Decida alguma coisa.
Somente através de decisões você fica cada vez mais cônscio, somente através de decisões você fica cada vez mais cristalizado, fica mais afiado.
Do contrário a pessoa torna-se apática.
As pessoas vão de um guru para outro, de um mestre para outro, de um templo para outro; não porque sejam grandes buscadoras, mas porque são incapazes de decidir.
Assim elas ficam pulando de um para outro.
Essa é a maneira delas evitar comprometer-se.
O mesmo acontece com outros relacionamentos humanos: um homem fica pulando de uma mulher para outra, vai mudando.
As pessoas acham que ele é um grande amante; ele não é um amante de jeito algum.
Ele está evitando, está tentando evitar algum envolvimento mais profundo porque com envolvimento mais profundo os problemas precisam ser enfrentados, e ele irá passar por muito sofrimento.
Assim a pessoa simplesmente joga seguro; a pessoa toma a decisão de nunca se envolver profundamente com alguém.
Se você for muito fundo, pode não ser capaz de voltar facilmente.
E se você for muito fundo com alguém, outra pessoa irá fundo com você também; é sempre proporcional.
Se eu for muito fundo com você, a única maneira é permitir que você também vá fundo em mim.
É um dar e receber, é um compartilhar.
Então a pessoa pode ficar enrolada demais e será difícil escapar.
O sofrimento pode ser grande.
Assim as pessoas aprendem como jogar seguro: basta se encontrar superficialmente; um caso de amor do tipo bata e corra.
Antes de ser agarrado, corra.
Isso é o que está acontecendo no mundo moderno.
As pessoas se tornaram tão imaturas, tão infantis; elas estão perdendo toda a maturidade.
A maturidade chega somente quando você está pronto para enfrentar a dor de seu ser; maturidade chega somente quando você está pronto para aceitar o desafio.
E não há um desafio maior que o amor.
Viver feliz com outra pessoa é o maior desafio do mundo.
É muito fácil viver pacificamente sozinho, é muito difícil viver pacificamente com outra pessoa, porque os dois mundos colidem, dois mundos se encontram...
Mundos totalmente diferentes.
Como é que eles são atraídos um pelo outro?
Porque eles são totalmente diferentes, quase opostos, pólos opostos.
É muito difícil ser pacífico num relacionamento, mas esse é o desafio.
Se você fugir disso, fugirá da maturidade.
Se você vai fundo nisso com toda a dor, e assim mesmo continua, então pouco a pouco a dor se torna uma bênção, a maldição se torna uma bênção.
Pouco a pouco, através do conflito, surge a fricção, a cristalização.
Através da luta você fica mais alerta, mais cônscio.
O outro se torna como um espelho.
Você pode ver sua feiúra nele.
O outro provoca sua inconsciência, trazendo-a para a superfície.
Você terá que conhecer todas as partes ocultas de seu ser e o caminho mais fácil é ser espelhado, refletido, num relacionamento.
Mais fácil, digo assim, porque não há outra maneira, mas isso é difícil, árduo, porque você terá que mudar através disso.
Quando você vai para um mestre, um desafio ainda maior se apresenta diante de si, pois terá que decidir e a decisão será por algo desconhecido.
A decisão precisa ser total e absoluta, irreversível.
Não é uma brincadeira de criança; é um ponto sem retorno.
Surgem muitos conflitos.
Mas não continue mudando sempre, porque essa é a maneira de evitar a si próprio.
E você irá permanecer mole, irá permanecer infantil.
A maturidade não acontecerá a você. (...)
Somente o desconhecido deve atraí-lo porque você ainda não o viveu; ainda não andou por esse território.
Mova-se!
Algo de novo pode acontecer por lá.
Sempre decida pelo desconhecido, seja qual for o risco, e você irá crescer continuamente.
Mas, se continuar decidindo pelo conhecido, ficará se movendo repetidamente num círculo com o passado.
Você prosseguirá repetindo-o; você se tornará como um gravador.
Assim, decida.
E quanto mais cedo você o fizer, melhor.
Adiamento é simplesmente estupidez.
Amanhã você terá que decidir também, então porque não hoje?
E você acha que amanhã será mais sábio do que hoje?
Acha que amanhã estará mais vivo que hoje?
Você acha que amanhã estará mais jovem que hoje, mais renovado que hoje?
Amanhã você estará mais velho, sua coragem será menor; amanhã você será mais experiente, sua esperteza será maior; amanhã a morte estará mais perto; você começará a dar sinais e a ficar mais assustado.
Nunca adie para amanhã.
E quem sabe?
Amanhã pode chegar ou pode não chegar.
Se você tem que decidir, é preciso decidir agora mesmo.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Da descoberta ao futebol
Ando me descobrindo, deve ser coisa da idade.
Aceitar e pensar sobre isto está sendo um grande desafio.
Aceitar e pensar sobre isto está sendo um grande desafio.
Ouvi em algum lugar que temos que nos permitir o luto da perda, por mais doloroso que seja. Pensei muito nisso, muito mesmo. Não consigo lidar muito bem com a perda, aliás uma dificuldade que está dentre minhas descobertas recentes.
Toda perda é dura, é injusta, doida, mas faz parte da vida deixar ir.
Toda perda é dura, é injusta, doida, mas faz parte da vida deixar ir.
Acontecimentos nos cercam diariamente nos envolvendo direta ou indiretamente. A forma que processamos isso é que faz a diferença. Estamos sempre à flor da pele esperando uma notícia (trágica?!) para nos envolver e tomar conta da nossa rotina de vida, ocupando nossos pensamentos.
Em caso de tragédia pública, então...trituram tanto os fatos que as notícias deixam de ser notícias e passam a circular dentro de nossas mentes por dias e dias.
Em caso de tragédia pública, então...trituram tanto os fatos que as notícias deixam de ser notícias e passam a circular dentro de nossas mentes por dias e dias.
Mas penso que tudo sempre tem um lado bom, neste caso um lembrete: "somos mortais".
Num instante respiramos e em outro...bem tudo pode acontecer. E o incrível é que preferimos dar ênfase ao que acontece aos outros, sempre. É da nossa natureza não nos perceber. Precisamos nos perceber importantes para nós, para alguém. Somos insubstituíveis, únicos. Ainda estamos vivos e passivos de sentimentos múltiplos aflorando a todo instante.
O mundo precisa de uma bomba atômica de amor e humanidade que pode vir de nós, cada ser. Temos este poder, de humanizar o amor, torná-lo oxigênio, combustível de vida.
O mundo precisa de uma bomba atômica de amor e humanidade que pode vir de nós, cada ser. Temos este poder, de humanizar o amor, torná-lo oxigênio, combustível de vida.
O romance de John Green "A culpa é das estrelas", traz uma feliz abordagem de como se viver o amor, mesmo quando teoricamente não há vida suficiente para vivê-lo:
A ideia vem de encontro com nosso Vinícius de Moraes que diz: "...eu possa me dizer do amor (que tive): que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure."
Valorizar o que temos e depois o que ainda não temos, é o lema.
Confesso que detesto futebol. Mas neste momento em que o país parece conspirar contra a Copa, me descubro apaixonada pela nossa seleção, por esses guris de histórias tão singulares, tão reais.
Outro dia me peguei não só assistindo, mas torcendo e vibrando com um gol espetacular do Brasil. Isso é valorizar o que temos. Vamos curtir esse momento depois pensamos no resto, aliás somos brasileiros, adoramos uma pausa.
Ao final deste texto, no qual mesclei vários temas, minha última descoberta: melhor do que estar apaixonada, é ser apaixonada.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
É o que sempre digo...
Eu
achava que não existia “tarefa de homem” e “tarefa de mulher”. Na verdade,
nunca tinha me preocupado muito em pensar a respeito. Qualquer pessoa poderia
fazer qualquer coisa dentro de suas habilidades, independentemente do gênero.
Descobri
que não é bem assim. Nas relações entre pessoas, há mais coisas do que imagina
nossa vã filosofia. Hoje acredito que sim, há tarefas para os homens, outras
para as mulheres. Questão de sobrevivência.
Era
Noite.
Não
a noite densa e escura da hora de dormir. Aquela noite leve, que acontece entre
o jantar e os primeiros bocejos. Todos satisfeitos e sabendo, intuitivamente,
que àquela hora não iria acontecer mais nada digno de ser lembrado. Os copos
teimavam em esvaziar, obrigando alguém a tomar uma atitude.
-
Não abre essa garrafa!
A
reação da sogra foi tão súbita que Bruna quase quebrou o vinho.
-
Nossa, desculpa, Maria. Achei que fosse para a gente tomar.
-
Mas pode tomar.
-
Então não entendi…
Henrique,
se virando no sofá, também parecia não ter entendido.
-
Por que ela não pode abrir, mãe?
-
Porque isso é coisa de homem.
-
Como é???
-
Sim, o homem sempre deve abrir a garrafa de vinho.
Henrique
lança um olhar perplexo a Bruna, que ainda segurava a garrafa e o saca-rolha.
Ela dá de ombros. Ele ergue uma sobrancelha. Por uma fração de segundo, ambos
mantêm este ping-pong telepático, que só os casais sabem fazer. Tentam lembrar
onde tinham aprendido esta regra de convivência: “quem deve abrir a garrafa”.
Chegando à certeza que não vinha de lugar nenhum, ele toma a iniciativa.
-
Não viaja, mãe.
-
Onde já se viu, guri. Levanta daí e abre a garrafa para ela.
-
Mas ela já está ali!
Não
havia como entender este súbito posicionamento machista da sua mãe. A garota
tentou terminar o assunto.
-
Pode deixar, Maria, já estou aqui mesmo.
A
matriarca vai para perto da nora, põe a mão em seu ombro e fala como se
estivesse revelando um aprendizado que só os anos de experiência trazem.
-
Conselho de amiga, Bruna. Se a gente abrir até as garrafas, não sobra nada para
os homens fazerem.
O Abridor de Garrafas - Felipe Freitag Vargas
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Tenho refletido
muito sobre a intolerância e a maldade
humana.
Se a história
nos fornece exemplos da irracionalidade que nutre os barbarismo que envergonham
as gerações posteriores, ela também oferece modelos de resistência e de
tolerância. A literatura, por sua vez, também expressa uma enorme contribuição.
Mais do que os tratados filosóficos, sociológicos etc., a literatura tem a
vantagem de trabalhar sobre a matéria bruta, os personagens criados em toda a
sua plenitude e fragilidade que caracterizam o humano. Nestes, o racional e o
irracional mesclam-se em atitudes e contextos que ilustram as nossas
contradições e dilemas. A literatura contribui ainda para a compreensão dos
contextos históricos e também para uma análise sociológica, política e
filosófica dos caminhos percorridos por nossos ancestrais e dos desafios que
temos diante da nossa geração e das que virão.
Mas infelizmente
não precisamos dos personagens fictícios como exemplos. Hoje convivemos com a barbárie aos
nossos olhos, muito, muito perto.
Menino tendo sua
morte friamente planejada por simplesmente existir, mulher mãe de família
agredida até a morte injustamente por pessoas que julgam e punem cruelmente,
porteiro morto e esquartejado ainda de forma duvidosa por fazer seu trabalho.
Isso ainda me
choca, será que não deveria?
Vivemos sem dúvida,
o retrocesso.
José Saramago compartilhou o mesmo sentimento no texto abaixo.
A Estupidez e a Maldade HumanaVista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer». Sem dúvida, mas não desta maneira.
José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
"O ser humano nasceu para ser feliz, completamente feliz. O ser humano nasceu com tudo programado para a felicidade. Você nasceu para dar certo. Esse é o grande projeto de Deus para sua vida. Esse é o grande segredo."
Escolhi esta citação para inaugurar meu blog, pois quem já não se questionou sobre o sentido da verdadeira felicidade? Eu, muitas vezes. É uma questão muito pertinente. Nos questionamos o porque disso o porque daquilo e esquecemos que o tempo passa e rápido e quando nos damos conta passou a vida.
A felicidade ao meu ver está no simples. No simples aperto de mão, na gentileza a um desconhecido, no abrir a janela e perceber que o dia amanheceu e que ainda dá tempo de correr atrás do prejuízo.
Sempre temos uma nova chance, sempre.
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